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Nova crise no etanol

Mal o ano começou e já nos deparamos com os problemas de sempre do etanol. Mais uma vez chegamos à entressafra com estoques baixos e preços em alta. Para se ter uma ideia, o litro do etanol anidro bateu em R$ 1,29 nas usinas, sem impostos, na semana encerrada em 15 de janeiro, enquanto o hidratado subiu mais de 16% só nos últimos 30 dias. Culpa do excesso de chuvas? Da crise financeira que deixou usinas sem capital de giro, obrigando-as a desovar seus estoques por valores baixíssimos? Da forte demanda no mercado externo por açúcar?

Sem dúvida, todos esses fatores contribuíram. E a má notícia é que vão contribuir sempre, porque o etanol é uma commodity agrícola, ou seja, cuja produção depende das condições climáticas, o que por tabela determina os preços. Felizmente, há formas de contornar o problema. A principal delas é tirar do papel os estoques reguladores, que poderiam ser acionados em situações emergenciais como esta. No ano passado, o governo até disponibilizou linha de financiamento específica para as usinas montarem seus estoques. Entretanto, com os números debilitados em função da crise e algumas até em inadimplência, poucas usinas conseguiram acessar os financiamentos disponíveis. Novas negociações estão em andamento, bem como a chegada ao mercado do agente comercializador. Ambas medidas podem diminuir, no médio prazo, a sazonalidade nos preços e na oferta de etanol.
No curto prazo, a medida mais acertada foi a redução de 25% para 20% no percentual de etanol anidro na gasolina, anunciada no início de janeiro pelo governo. Apesar de usineiros e distribuidoras acharem que a medida era desnecessária, acredito que foi o melhor caminho para evitar desabastecimentos e, mais importante, para impedir que alguns pontos ficassem à mercê das escolhas das distribuidoras. Afinal, em várias regiões do país já havia notícia de que as companhias estavam precisando “administrar” estoques, o que se traduziu em carregamentos que chegavam aos postos abaixo do volume pedido. E, caso a oferta se tornasse ainda mais restrita, quem teria prioridade na compra desse produto? Com certeza, os postos grandes, localizados em grandes centros e os de propriedade das distribuidoras não teriam significativos problemas de abastecimento. Mas como ficariam os postos pequenos, ou os localizados em regiões remotas, ou mesmo aqueles que estão em litígio com a companhia ou têm divergências com seus gerentes regionais? Quem garantiria o suprimento dos postos bandeira branca, que compram no mercado spot? Foi pensando no mercado como um todo que a Fecombustíveis decidiu apoiar a medida anunciada pelo governo.
Entre os argumentos contrários à redução do percentual de anidro está o de aumento no preço da gasolina. Em primeiro lugar, é importante destacar que a alta nos preços da gasolina dar-se-ia de qualquer forma, já que os custos do anidro seguem em rota ascendente nas usinas. De qualquer maneira, o governo já estuda mudanças na Cide, de forma a compensar a diferença de preço (e, mais importante, de tributação) entre os dois combustíveis.
A redução no percentual de anidro entra em vigor agora em fevereiro, com previsão de duração de três meses. A ideia é acompanhar o comportamento do mercado e assim decidir se há necessidade de suspender ou prolongar a vigência do novo percentual. A expectativa é de que a safra comece em março, se as chuvas não atrapalharem, o que deve trazer o mercado à normalidade.
Assim esperamos. Afinal, crises como essas apenas prejudicam a imagem do etanol no exterior, fragilizando ainda mais o perfil que o país quer construir de fornecedor confiável de biocombustível. Sem falar que problemas como esse tiram o foco do que mais preocupa governo e empresários em relação ao etanol: a sonegação fiscal.
Não tenho dúvidas de que a crise de oferta será passageira, mas infelizmente não posso dizer o mesmo sobre os problemas fiscais. Esses sim, difíceis de resolver e que não ganham o mesmo destaque na mídia, apesar de serem muito mais maléficos à sociedade.

 

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