Bicicletas elétricas ganham espaço em cidades do interior e nas classes C e D

O Globo

03/02/2019 – As vendas de bicicletas elétricas alcançaram 31 mil unidades no país em 2018, mais de dez vezes o registrado em 2010, quando estrearam no Brasil. Em quase duas décadas, foram vendidas 94 mil. Ainda restritas ao lazer de pessoas que podem pagar facilmente cerca de R$ 4 mil por um dos modelos, as magrelas com baterias começam a se popularizar. Com a comodidade de dispensar habilitação ou emplacamento, o baixo custo de manutenção e o surgimento de linhas de crédito, as bikes elétricas conquistam mais ciclistas em cidades do interior e nas classes C e D, que começam a descobrir as vantagens de ter aquele alívio nos pedais.

Segundo um estudo da Aliança Bike, a associação brasileira do setor de bicicletas, a venda de bikes elétricas deve alcançar 54 mil unidades só este ano e chegar a 130 mil em 2023, se a economia engrenar. Além de um meio de transporte barato, são uma boa alternativa para quem trabalha com entregas.

Moradora da Gamboa, a empreendedora Eliane Fideli, de 47 anos, sempre trabalhou de bicicleta. Vendedora de quentinhas na Praia do Flamengo, por muito tempo pedalou um modelo de carga, com uma cesta ampliada na frente, o que acabou provocando uma lesão no joelho. Em busca de uma alternativa, chegou a usar uma pequena motocicleta, mas se encantou pela bicicleta elétrica.

— Um amigo comprou e gostou tanto, que me convenceu a investir. Foi a melhor coisa que fiz. Quebra muito o galho — conta Eliane, que ganha cerca de R$ 3 mil por mês e comemora não precisar gastar com gasolina. — Carrego as baterias na tomada e nem sinto o peso na conta de luz. Meu gasto com energia não mudou muito.

Menos burocracia
A tendência de crescimento das bicicletas elétricas chamou a atenção da Aliança Bike numa observação da ciclovia da Avenida Faria Lima, uma das mais movimentadas de São Paulo. Em um dia de 2015, os pesquisadores identificaram apenas 35 elétricas entre os ciclistas que passaram no local entre 6h e 20h. Três anos depois, a repetição do experimento no mesmo horário registrou 421. Para Daniel Guth, coordenador de projetos da associação, o segmento poderia crescer muito mais no Brasil se o preço final ao consumidor fosse menor.

Na comparação com União Europeia, Japão e EUA, as bikes elétricas comercializadas no Brasil chegam a ser 80% mais caras, diz o estudo da Aliança Bike. O problema, diz a associação, é a carga tributária. Uma bicicleta elétrica montada no Brasil — com as principais peças importadas —pode ter até 80% do seu custo formado por impostos, diz a associação. Tem alíquota de IPI, por exemplo, de 35%. As bicicletas convencionais recolhem 10%.

— Se o IPI fosse igual, teríamos uma redução de 18% no preço final de uma bike elétrica. Com isso, a projeção de vendas em 2023 saltaria para 280 mil — calcula Guth, que diz já ter encaminhado ao governo pedido de equiparação.

Uma maneira de contornar o custo alto é o financiamento. As principais marcas, como a paulista Vela Bikes, a carioca Lev e a catarinense Woie já vendem os veículos em parcelas. O banco Santander, que tinha uma linha de crédito exclusiva para incentivar funcionários a adotar bikes elétricas para ir ao trabalho, passou a oferecê-la a todos os clientes desde dezembro. O banco financia até 100% do valor do produto, que pode ser parcelado em até 48 vezes, com taxas a partir de 1,69% ao mês.

— A bike elétrica deixou de ser um objeto de desejo das classes A e B e passou a ser procurado por todas as outras. Eu via que muitas pessoas entravam nas lojas interessadas no produto, mas não conseguiam arcar com o valor. Aí começamos a pensar em facilidades de pagamento — explica Rodrigo Affonso, sócio da Lev, que parcela a compra em até 24 vezes.