Império de franquias

O Globo

03/02/2019 – Depois do baque sofrido durante os anos de crise, o setor de franquias se prepara para voltar a crescer em 2019, se confirmadas as expectativas de aceleração do crescimento da economia. Mas quem planeja investir suas economias neste tipo de negócio precisa saber de uma coisa: o mercado de franquias não é mais uma porta de entrada tão fácil para quem quer trocar a vida de empregado pela de empreendedor.

O setor está cada vez mais concentrado nas mãos de quem já é do ramo e controla não apenas uma unidade, mas várias e, em alguns casos, de mais de uma marca. De acordo com pesquisa recente da Associação Brasileira de Franchising (ABF), 55% dos mais de 140 mil pontos de vendas de franquias no Brasil são administrados por gente que tem mais de uma unidade no portfólio. Segundo o mesmo estudo, 54% das marcas franqueadoras informam trabalhar com multifranqueados, nome dado aos que controlam mais de uma franquia. Em 2016, esse índice era de 38%.

TENDÊNCIA NOS EUA

Esse é um cenário novo num mercado tradicionalmente pulverizado, a julgar pela popularidade das feiras da ABF para angariar novos franqueados, que costumam reunir milhares de interessados país afora. Boa parte desse público costuma ser de brasileiros que perderam o emprego e buscam numa franquia uma nova atividade, atraídos pela vantagem de poder aplicar o modelo de marcas consagradas. Mas, agora, o setor de franquias brasileiro experimenta um processo de concentração comparável ao que ocorreu nos Estados Unidos, berço do modelo, e onde é comum ver fundos de investimentos aportarem recursos em empresas abertas por donos de uma porção de franquias diferentes — muitos deles com receitas anuais acima de US$ 1 bilhão. — Ainda não temos multifranqueados desse porte no Brasil, mas é uma questão de tempo e de as condições da economia ajudarem — diz Marcelo Cherto, presidente da Cherto Consultoria, que atende redes de franquias, e um dos fundadores da ABF. Afinal, quem são os maiores multifranqueados no Brasil? Boa parte deles começou do zero: raspou economias para montar uma unidade, tomou jeito pela coisa e se profissionalizou, aplicando o conhecimento adquirido em outras unidades. Há casos em que hoje é a segunda geração da família quem toca os negócios. Um exemplo é o do potiguar Glauber Gentil, que gerencia 95 unidades das redes O Boticário (de cosméticos), Sunglass Hut (de óculos) e Swarovski (de joias), em cinco estados do Nordeste. Desde 2017, ele é diretor executivo da Gentil Negócios, empresa fundada há nove anos para administrar o dia adia das unidades de franquias da família, que remontam a 1982. Foi naquele ano que o pai dele, Antonio, trocou um cargo executivo numa varejista de Natal para abrir uma loja de O Boticário.

CONSELHO PARA DECIDIR

Em 2019, a Gentil Negócios espera faturar R$ 250 milhões — 12% acima do ano passado — e abrir mais cinco lojas. Com mais de 700 funcionários, a empresa tem até um conselho de administração com gente de mercado para dar conselhos nas decisões do que cabe a um franqueado, como avaliar pontos para novas lojas ou treinar funcionários para atender aos padrões ditados pelas marcas. — O conselho é útil para não ficarmos presos ao conceito de uma empresa de família —diz Glauber. O apetite dos multifranqueados tem feito as marcas darem preferência a eles quando donos de um único ponto de venda querem passar suas unidades adiante, alimentando a concentração do setor. Foi o que aconteceu com Rodrigo Gobbo, do Grupo Natureza, dono de 39 operações de O Boticário e cinco da rede Quem Disse, Berenice?, do mesmo grupo, abertas pela família nos arredores de Goiânia (GO) ao longo de três décadas. Com as receitas de suas unidades somando cerca de R$ 150 milhões por ano, ele teve preferência na compra de uma filial da rede de cosméticos na estância turística de Caldas Novas, colocada à venda pelo antigo franqueado no ano passado. Anos antes, Gobbo passou por um treinamento em gestão, patrocinado pela própria O Boticário, com executivos da consultoria Bain&Company. Segundo ele, há muitas oportunidades de compra de franquias de empreendedores que têm apenas uma unidade: —Muita gente da primeira geração, que investiu no sistema nos anos 1980, hoje envelheceu e está cansada da operação. Isso é um desafio, já que o varejo exige dedicação total.

“Muita gente da primeira geração, que investiu no sistema nos anos 1980, envelheceu e está cansada da operação. Isso é um desafio, já que o varejo exige dedicação total” _ Rodrigo