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Combustível perdeu espaço para o etanol
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Combustível perdeu espaço para o etanol
Tributos
Qualidade
Preços e Volumes
Margens
Mercado

Em um ano de tantos recordes de vendas como 2008, o crescimento do volume da gasolina C no mercado ficou em apenas 3,5%. A tendência de menor participação do combustível já vinha acontecendo nos últimos anos, como reflexo do aumento da frota de veículos do tipo flex fuel e da preferência do consumidor pelo etanol.

Um dos itens que mais chama a atenção na análise dos dados de mercado da gasolina, em 2008, é o pequeno aumento do volume do combustível em circulação. Em 2007, o volume total da gasolina consumida no Brasil ultrapassou os 24 bilhões de litros; em 2008, chegou apenas a pouco mais de 25 bilhões.

Este aumento pequeno na participação do combustível parece contraditório, se comparado à grande ampliação da frota de veículos no país no mesmo período. Segundo dados da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotivos), apenas em 2008 foram produzidos e emplacados mais de 3,2 milhões de veículos. No entanto, a explicação para o volume da gasolina não ter acompanhado o aumento da frota é o chamado efeito de substituição, que está ocorrendo na área dos combustíveis automotivos leves. Hoje, os veículos do tipo flex fuel permitem que o consumidor decida na hora do abastecimento qual o combustível de preferência. E estes veículos vêm ganhando espaço cada vez maior no mercado; de acordo com as estatísticas da Anfavea, do total de 3,2 milhões de unidades, 2,25 milhões são bicombustíveis. Com os preços do etanol hidratado mais interessantes, do ponto de vista do consumidor, a gasolina passou a ser um combustível alternativo para boa parte dos motoristas.

Embora o preço da gasolina não tenha tido grande alteração no último ano (o gráfico mostra uma queda no preço médio dos postos de R$ 2,504 em 2007 para R$ 2,501 em 2008), o etanol vem se mostrando mais competitivo. Porém, o preço não é a única razão da preferência do consumidor pelo etanol: diante de tantas irregularidades na gasolina (adulteração com solventes ou com excesso de álcool anidro), o consumidor cujo veículo roda também com etanol passou a se sentir mais seguro optando pelo outro combustível.

As fraudes do mercado de combustíveis também contribuem para a redução da participação da gasolina. Além da comercialização fraudulenta de gasolina C com excesso de álcool anidro, que representa quase metade – 48% - das não-conformidades, as distorções no mercado do álcool (como as irregularidades fiscais e a venda do álcool hidratado com excesso de água) também colaboram para o crescimento sutil do volume de gasolina. Afinal, a fraude fiscal e o excesso de água na formulação resultam na redução do preço do produto. Como consequência, o consumidor que busca baixo preço opta pelo álcool ao invés da gasolina. E o excesso de anidro (que, não por acaso, obteve alta de 7,7% de participação) substitui parte da gasolina A que poderia estar sendo comercializada.

Mas, apesar das fraudes, os gráficos indicativos de qualidade apresentam um resultado bastante positivo, mostrando uma queda acentuada nos índices de não-conformidade a partir de 2006. Por isso, cabe aqui uma ressalva: é inegável que houve um aumento da eficácia da fiscalização. A ANP, juntamente com as Secretarias de Fazenda, Prefeituras e Ministério Público, intensificou as ações de combate às fraudes e vem exercendo papel fundamental na moralização do mercado. Entretanto, outros fatores justificam a queda nos índices. Um deles é a sofisticação dos métodos utilizados pelos fraudadores, que dificultam o trabalho dos fiscais. Existem amostras de gasolina cuja análise revela um produto totalmente em conformidade com as especificações definidas pela ANP, mas que, na verdade, são fórmulas fabricadas à semelhança do combustível, que utilizam em sua composição solventes e outros produtos com menor carga tributária. Por isso, problemas com a destilação e octanagem da gasolina aparecem como não-conformidades de menor incidência dentre as irregularidades encontradas.

Os gráficos apontam também que as amostras não-conformes estavam sendo comercializadas por preços superiores à média de todas as amostras (conformes e não-conformes). Isso joga por terra o senso comum de que o combustível adulterado é vendido por preços reduzidos.

O maior índice de não-conformidades aparece nos postos independentes (4% no primeiro semestre de 2008, ante um índice de 2,2% apresentado por postos de bandeiras líderes no mesmo período). As bandeiras líderes e outras bandeiras praticamente empatam neste quesito. Este resultado corresponde à percepção generalizada do consumidor de que postos que operam sob uma bandeira oferecem maior confiabilidade.

Apesar desta premissa nem sempre ser verdadeira, é certo que as bandeiras prezam a valorização e credibilidade de sua marca. Por este motivo, investem mais nos postos que ostentam sua marca, transformando-os em estabelecimentos mais atrativos para o consumidor. Isso se reflete diretamente na margem do revendedor. Ao contrário do que se pressupunha até recentemente, postos independentes são os que faturam menos (12,1%), ficando acima apenas dos postos de bandeira Shell (11,9%). Os revendedores que obtêm melhores margens com a venda de gasolina operam sob bandeira Chevron e BR, respectivamente com 12,9% e 12,7%.

As distribuidoras que faturam as melhores margens são Ipiranga (5,1%) e Chevron  (4,9%), e a pior fica para a Esso (4,2%). A Shell vem enfrentando queda desde 2007 (passou de 5,4% para 4,7%).

As bandeiras Esso e Shell apresentam queda nas margens tanto da revenda quanto da distribuição. Isso reflete um erro de posicionamento das empresas no mercado, que tentaram valorizar suas marcas mantendo a elevação dos preços da gasolina. Tal iniciativa não foi bem sucedida, já que o consumidor ainda procura menores preços. E, como é possível observar nos gráficos de qualidade, preço baixo não está necessariamente relacionado à adulteração do produto.

Em relação à tributação, em 2008 a arrecadação de impostos incidentes sobre a gasolina teve relativamente uma ligeira queda, apesar do aumento do faturamento (que passou de R$ 61 bilhões para R$ 63 bilhões). O motivo foi a diminuição da CIDE, usada pelo governo federal para evitar maior impacto inflacionário no último reajuste do preço da gasolina. A redução passou a vigorar a partir de maio do ano passado.

Em relação ao market-share das distribuidoras, a BR aparece disparado na frente, com 28% do mercado total de gasolina. No último ano, sua participação aumentou dois pontos percentuais. A Ipiranga, por sua vez, teve queda no mesmo período: passou de 16% para 13%. O motivo foi que os postos de bandeira Ipiranga, nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, passaram a ser operados pela BR Distribuidora, depois que a BR, juntamente com o Grupo Ultra, adquiriu a rede de postos da Ipiranga. Com a redução da participação da Ipiranga, a Shell praticamente empata na terceira posição, com 12% de participação. A Chevron vem se mantendo estável desde 2003, com 9% de participação, e a Esso caiu de 9% em 2007 para 8% em 2008. No total, as marcas líderes têm 70% de participação no mercado de gasolina, enquanto as outras respondem pelos 30% restantes.