Canal da Revenda

A década passada selou a paz entre consumidores e etanol. Afinal, com o surgimento do carro do flex, ninguém mais corria o risco de ficar com o carro preso na garagem por falta do biocombustível. Além disso, a disparada do preço do petróleo no mercado internacional e as crescentes preocupações ambientais tornaram o combustível mais atrativo e competitivo.

Desde o ano passado, no entanto, o cenário mudou. E não foi pouco. A crise econômica internacional de 2008, que mostrou seus efeitos no Brasil especialmente em 2009, trouxe uma profunda consolidação do setor sucroalcooleiro no país. Algumas usinas foram compradas, outras se fundiram e algumas fecharam as portas. Sobreviveram os grupos mais sólidos e capitalizados, que aproveitaram a oportunidade para consolidar posições.

De lá para cá, a crise passou e os preços do etanol no mercado interno aumentaram. E seguem subindo, incluindo nos períodos de safra. Uma hora a culpa é da chuva, em outra, da seca. Mas a verdade é que o usineiro é, antes de tudo, um empresário que busca o lucro. E nesse momento o açúcar remunera até 50% a mais que o etanol. Não é difícil adivinhar, portanto, qual produto tem sido o preferido pelos produtores.

Somos também empresários e buscamos a melhor performance possível para nosso negócio. Mas não podemos esquecer que o etanol representa um programa de governo. E o que acontece no mercado interno tem impacto direto sobre a imagem do produto em outros países, cujos mercados tentamos há anos abrir. Não se trata meramente de uma questão de preços, mas sim de compromisso. O etanol mais caro apenas reflete os baixos estoques, o que acende a luz amarela: vai faltar produto?

A primeira quinzena de abril deve trazer um período crítico para o abastecimento de etanol. No mês passado, participei de uma reunião com governo e agentes do mercado, na qual discutimos por uma manhã inteira essa questão. Reduzir o percentual de anidro na gasolina não é uma opção viável nesse momento, pois não poderia ser implementada em tempo hábil para resolver o problema de curtíssimo prazo. Além disso, tal decisão aumentaria a demanda por gasolina, cuja produção na Petrobras já se encontra em seu limite máximo. Até meados de março, a solução mais plausível parecia ser a importação de etanol de milho. Aquele mesmo que tantas vezes combatemos, por receber subsídios do governo dos Estados Unidos, por concorrer com a produção de alimentos e por ter menor eficiência energética. Para um país que deseja ser o principal player no mercado internacional, pior propaganda não poderia haver.

O governo cochilou. Demorou muito para tomar uma decisão, acreditando nas projeções de que os maiores preços levariam o consumidor a migrar para a gasolina. O problema é que o consumidor acreditou na propaganda feita nos últimos anos (por governo e usineiros), desenvolveu sua consciência ambiental e não se importou em pagar mais pelo produto. E aí o consumo não caiu como se esperava. Resultado: não tem etanol suficiente para todos.

Pelo que a imprensa tem noticiado, o governo vai responder a essa “crise” com mais recursos para investimento em produção. Até agora, no entanto, não ouvi falar em contrapartidas, estoques reguladores, nem em garantias de que os novos investimentos subsidiados pelo governo serão realmente destinados à produção de etanol. Isso me faz lembrar a declaração criada por um assessor do Bill Clinton (“É a economia, idiota!”), explicando o que seria determinante na campanha presidencial norte-americana de 1992. E quase ouço alguém gritar na minha frente: “A culpa é do consumidor, idiota!”. Consumidor este que resolveu comprar o discurso ecológico e dar preferência ao etanol na hora de abastecer. Por culpa dele o consumo não caiu, ora!

Os usineiros estão dando um incompreensível tiro no pé: perdem credibilidade junto aos consumidores brasileiros e dão argumentos para os detratores do nosso etanol mundo afora. Faltou visão de longo prazo. Uma pena!