Canal da Revenda

Cada vez mais os números que chegam do mercado reforçam nossa confiança de que a economia está bastante aquecida e de que 2010 será de bons resultados para a atividade de revenda, apesar das limitações inerentes a um ano eleitoral, especialmente na questão normativa. As previsões para o crescimento do Produto Interno Bruto seguem sendo revisadas para cima e agora já há quem aposté em expansão de 7% para o fechado de 2010.

E tamanho otimismo não parece infundado. Todo revendedor já deve ter sentido em suas bombas os efeitos positivos das vendas de automóveis,do  aumento do nível de emprego e da maior atividade econômica como um todo. Para se ter uma ideia, em março as distribuidoras associadas ao Sindicom, responsáveis por cerca de 80% da comercialização de combustíveis no país, registraram vendas recordes de diesel. Foram despachados 3,538 bilhões de litros num mês tradicionalmente fraco para este combustível. O recorde anterior havia sido de 3,531 bilhões de litros, em setembro do ano passado, quando a economia já se recuperava da crise e num mês que normalmente apresenta bons números para a comercialização de diesel.

Já no segmento de veículos leves, a retomada da competitividade dos preços do etanol fez com que as entregas do produto nas usinas crescessem 30% na segunda quinzena de março.

Entretanto, é necessário que alguns problemas sejam resolvidos para que esses bons desempenhos se traduzam, de fato, em excelentes resultados para os empresários que trabalham dentro da ética e cumprindo todas as regras do setor. No etanol, por exemplo, parece que todos os problemas enfrentados no final do ano passado e início do atual, sem falar dos anos anteriores, ainda não foram suficientes para dar urgência à implementação de medidas eficazes. Em meados de abril, o preço do etanol deu um repique nas usinas, subindo quase 19% em uma semana, em meio a distribuidoras e produtores sem estoques para fazer frente à repentina retomada do consumo. Trata-se de um movimento pontual? Provavelmente sim. Mas que, com certeza, poderia ter sido suavizado caso houvesse os já lendários estoques estratégicos. Daqui a pouco estaremos novamente na entressafra, sem que os estoques tenham saído do papel. E onde está o novo marco regulatório para o setor de biocombustíveis, que daria mais poderes de fiscalização e regulação para a ANP sobre a produção de etanol, à semelhança do que já ocorre com o biodiesel, e ajudaria a mitigar as irregularidades do setor?

Por falar em biodiesel, no mês passado, surgiram rumores de que estaria em estudo no governo um aumento do percentual da mistura dos 5% atuais para 10% ou 20%. Fecombustíveis e  Sindicom não foram, ainda, oficialmente convocados para discutir tais propostas. Para a revenda, não há dúvidas de que o Programa de Biodiesel no Brasil é um sucesso, conseguindo em poucos anos introduzir um novo combustível na matriz energética brasileira. Entretanto, acreditamos que o momento é para reflexão e ajustes dos pontos que ainda precisam ser aprimorados.

Ao contrário do que o governo previa, a produção ainda está muito concentrada na soja, pouco baseada na agricultura familiar e o biodiesel segue com preço elevado. Além disso, até o momento a ANP não conseguiu apresentar um teste eficaz que possa ser realizado nos postos para identificar o percentual de biodiesel no diesel. Sem ele, abre-se espaço para fraudes no percentual da mistura, que pode ser maior ou menor do que o previsto na legislação, a depender do custo do biodiesel em relação ao diesel. Não podemos esquecer também dos relatos de revendedores quanto ao incremento na formação de borra desde que o biodiesel passou a ser utilizado, o que com certeza se agravará no momento em que for adicionado um percentual maior do produto.

Por fim, gostaria de lembrar que a Fecombustíveis tem acompanhado de perto as discussões em relação ao Documento de Estocagem e Comercialização de Combustíveis, uma espécie de LMC eletrônico. Infelizmente, ao nos depararmos com a proposta de minuta para a audiência pública, lamentamos que a ANP tenha perdido a oportunidade de criar um grupo de trabalho para discutir os pontos que foram levantados pela revenda e promover, assim, uma implementação mais tranquila para o novo sistema. Levaremos, mais uma vez, nossas sugestões para a audiência pública, prevista para maio, certos de que prevalecerá o bom senso da ANP, que precisa levar em conta a diversidade de agentes espalhados pelo Brasil.