Notícias

Apesar do aquecimento global, as companhias petrolíferas prosperam

Calor, seca, inundações e fome. As provas das alterações climáticas estão à nossa volta. Para que o planeta evite consequências ainda mais graves do aquecimento global, segundo a Agência Internacional de Energia, a maior autoridade mundial no tema, o consumo de petróleo, carvão e gás natural tem de ser reduzido muito mais rapidamente. Já as fontes de energia limpa, como solar e eólica, têm de se expandir a um ritmo muito mais rápido.

Mas o mercado financeiro parece não ter recebido o memorando. Pelo contrário, as ações de uma vasta gama de empresas de energia limpa têm sido esmagadas ultimamente, numa derrota que abrange praticamente todos os setores de energia alternativa – solar, eólica e geotérmica.

Ao mesmo tempo, em vez de se libertarem do petróleo, a Exxon Mobil e a Chevron, as duas maiores empresas petrolíferas dos EUA, estão duplicando os investimentos e anunciaram aquisições que aumentarão suas reservas. A Exxon pretende comprar a Pioneer Natural Resources, empresa de perfuração de xisto, por US$ 59,5 bilhões. Já a Chevron planeja adquirir a Hess, uma grande empresa petrolífera integrada, por US$ 53 bilhões. São enormes apostas no petróleo para os próximos anos.

MÁQUINA DE PESAR. Benjamin Graham, grande investidor e professor da universidade Columbia, disse uma vez: “A curto prazo, o mercado é uma máquina de votar, mas a longo prazo, é uma máquina de pesar”. Isso significa que o mercado acaba por acertar, mas, no curto prazo, é propenso a entusiasmos, julgamentos precipitados e pensamento míope. Parece ser isso que está acontecendo agora.

Centenas de bilhões de dólares estão, de fato, sendo investidos em projetos de energias renováveis, mesmo que o mercado de ações não esteja favorecendo isso neste momento. Os retornos são baixos. O iShares Global Clean Energy ETF, fundo negociado em bolsa que rastreia todo o setor, caiu mais de 30% este ano. Pior, desde o início de 2021, perdeu mais de 50%.

Outros setores também estão sendo punidos. O ETF Invesco Solar caiu mais de 40% este ano e quase 60% desde janeiro de 2021. O ETF First Trust Global Wind Energy perdeu cerca de 20% no ano e cerca de 40% desde 2021.

DURO GOLPE. A taxa de juros em alta aumentou os custos e moderou o entusiasmo do consumidor em muitos países, reduzindo as avaliações de ações de empresas de rápido crescimento que não estão gerando grandes lucros. As empresas de energias renováveis foram duramente afetadas.

A SolarEdge, que fornece equipamentos para converter a energia dos painéis solares em energia que pode ser transmitida por meio das redes elétricas avisou, em 17 de outubro, que a procura dos seus produtos estava diminuindo. O mercado reagiu de forma dura. As ações da empresa, com sede em Israel, caíram quase 30% num só dia.

Outras empresas de energia solar seguiram a queda. A Enphase Energy, uma empresa rival de Fremont, na Califórnia, perdeu quase 40% desde então.

As empresas de energia eólica também não foram poupadas. As ações da Orsted, empresa dinamarquesa de turbinas eólicas, caíram quase 26% após ela anunciar que pode reduzir em até US$ 5,6 bilhões seus projetos offshore nos EUA.

Já os lucros e as receitas das grandes empresas petrolíferas se enfraqueceram desde o ano passado, quando os preços da energia dispararam após a invasão da Ucrânia pela Rússia. Os preços do petróleo são voláteis, mas a Exxon e a Chevron apostam seu futuro no petróleo. Nos últimos três anos, a Exxon aumentou seus rendimentos em cerca de 275%, incluindo dividendos; a Chevron, em 135%. O S&P 500 rendeu cerca de 32%.

Mas se a guerra entre Israel e o Hamas se agravar, advertiu o Banco Mundial, o conflito poderá desencadear uma alta acentuada dos preços do petróleo. As petrolíferas, porém, continuam apreciadas pela capacidade de jorrar dinheiro, enquanto as empresas de energias alternativas ainda estão sendo avaliadas, por mais que o mundo precise delas. Se você busca um guia para o futuro, não conte com o mercado de ações.

Autor/Veículo: O Estado de S.Paulo
Compartilhe: