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Combustíveis podem ficar mais caros no país, após corte na produção de petróleo

Depois de um começo de ano de estabilidade, os preços dos combustíveis podem voltar a subir nos próximos dias no Brasil, após a disparada do valor do barril de petróleo nesta segunda-feira (3) em 6,31%, com o anúncio do corte inesperado na produção do óleo pela Arábia Saudita e por outros membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep+), a partir de maio.

A decisão da Opep+, anunciada no domingo (2), foi baseada nos temores de uma demanda mais fraca por petróleo no mundo. Assim, os países vão produzir cerca de 1 milhão de barris a menos por dia até o fim do ano. E este anúncio levou o petróleo brent a subir e chegar aos US$ 84,93 nesta segunda.

“Se esse corte não fosse feito, o petróleo provavelmente cairia abaixo de 80 dólares o barril, o que é uma marca considerada pelos analistas de mercado como um patamar muito baixo. Então o que a gente deve ter como consequência é que o alívio que estava havendo nos preços dos combustíveis internamente no Brasil deve encontrar um piso a partir de agora. A menos que o dólar recue abaixo de R$ 5, o preço dos combustíveis não deve cair mais no Brasil", analisa Robson Gonçalves, economista e professor de MBAs da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

"A Opep é um cartel e está tentando segurar os preços, compatibilizando a produção com o ritmo de crescimento da economia mundial, que vai ser mais lento, principalmente por conta do ajuste de crescimento na China”, completa.

E além de parar de cair, o preço da gasolina pode subir. Apesar do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticar a forma de cálculo do preço do combustível, que sobe quando o valor do barril de petróleo aumenta e vice-versa, desde a implementação do sistema de Preço de Paridade Internacional (PPI) em 2016, pelo ex-presidente Michel Temer (MDB), a Petrobras ainda mantém este modelo de cálculo.

“Provavelmente, a gente está próximo da definição de uma nova política de precificação de combustíveis. É algo ainda que ninguém sabe ao certo, mas pode ser que o governo não mude muito a política que a gente tem visto, nos últimos anos, mais alinhada com os preços do petróleo no mercado internacional. Então essa alta do preço do petróleo lá fora seria refletida nos preços dos combustíveis aqui no Brasil”, afirma Ruy Hungria, especialista da casa de análise Empiricus.

Mas o governo também pode optar por uma maior interferência nos preços, na tentativa de evitar uma alta desenfreada dos combustíveis. Mas o temor do mercado financeiro é que ocorra o que houve na gestão da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), quando a Petrobras segurou os preços da gasolina e do diesel para a população e amargava prejuízo bilionário, enquanto o valor do barril de petróleo subia no mercado externo.

“O governo pode adotar uma política de precificação que pondera as coisas, fica no meio do caminho, o que seria um pouco ruim para a Petrobras, mas entendo que o mercado já enxerga esse cenário dos preços com uma interferência que não seja tão grande assim. E tem o cenário mais catastrófico, que é o petróleo subir muito lá fora e a Petrobras não repassar nada aqui no mercado interno, assumindo para ela o prejuízo. É o grande medo do mercado hoje, mas não é o cenário base, na nossa visão”, avalia Hungria.

Com a valorização do preço do petróleo, as ações das empresas petrolíferas listadas na Bolsa de Valores lideraram as altas no Ibovespa nesta segunda, com os papéis da Petrobras subindo 4,76%, os da PetroRio 3,88% e os da 3R Petroleum fechando em alta de 1,56%.

Em março, o preço do barril de petróleo caiu e chegou a ser cotado a US$ 67, com o mercado aflito em relação ao sistema bancário dos Estados Unidos e o pavor de uma recessão global.

“A iniciativa liderada pela Arábia Saudita é incomum e provavelmente elevará os preços do petróleo. Os cortes seguem uma queda acentuada nos preços do petróleo no mês passado após o colapso do Silicon Valley Bank dos EUA e a aquisição forçada do Credit Suisse pelo UBS, o que provocou temores de contágio nos mercados financeiros globais e uma queda significativa na demanda por petróleo”, disse o analista da Eleven Financial, Raphael Figueredo.

Mas após o anúncio de domingo da Opep, o grupo financeiro Goldman Sachs aumentou as previsões de preço para o barril de petróleo brent em 5 dólares, de US$ 90 para US$ 95 para dezembro de 2023, e de US$ 97 para US$ 100 para dezembro de 2024.

Inflação e juros

Os especialistas de mercado acreditam que o aumento do preço do barril de petróleo deve dificultar ainda mais a queda da taxa básica de juros no Brasil, que está em 13,75% para tentar controlar a inflação no país.

Como a gasolina e o diesel são usados no transporte de alimentos e de diversos outros produtos, o aumento desses combustíveis impactam os preços de várias cadeias produtivas. Neste cenário, o estrategista-chefe e sócio da Acqua Vero, Antonio van Moorsel, vê pouca chance de queda na Selic em 2023.

“Considerando uma maior pressão inflacionária, é natural conjecturar sobre a possibilidade de um ciclo de ajuste mais extenso ou uma manutenção da Selic em 13,75% por mais tempo, algo que já é o nosso cenário básico. Acreditamos que deve permanecer assim até o fim do ano, justamente por uma inflação que exacerba o desafio do Banco Central em ancorar as expectativas”, analisa.

Também nesta segunda-feira, o boletim Focus, divulgado pelo Banco Central, apontou um aumento na previsão de inflação para 2023 no Brasil, passando de 5,93% para 5,96%.

Petrolíferas sobem, outros setores caem

Com a possibilidade da inflação e dos juros continuarem altos no país, vários outros setores do Ibovespa não tiveram bom desempenho neste início de semana.

O índice fechou o pregão com queda de 0,37%, aos 101.506 pontos. As maiores baixas do dia foram das Lojas Renner (-7%), da Hapvida (-6,49%) e do Grupo Soma (-5,80%).

Autor/Veículo: O Tempo
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