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Mudança no frete da Petrobras tem efeito limitado no preço de combustível

Uma eventual mudança no cálculo do frete da Petrobras depende de negociações comerciais da petroleira com clientes e teria impacto limitado nos preços finais de combustíveis, dizem especialistas. Discussões sobre o tema ocorrem no contexto da alta de preços de combustíveis. O jornal "O Globo" publicou no fim de semana que o governo considera mudar a metodologia usada no cálculo do frete do petróleo que é enviado pela empresa às refinarias.

O preço atual do frete nesse transporte é calculado por meio do CIF (cost, insurance, and freight, na sigla em inglês), método de exportação em que o vendedor paga as despesas até que o produto seja carregado no navio. A proposta seria alterar o CIF para FOB (free on board, na sigla em inglês), modalidade na qual o comprador assume as responsabilidades por todos os riscos e custos no transporte.

Especialistas explicam que, na prática, com essa mudança, o governo busca usar os preços de exportação do petróleo produzido pela estatal como base para as cotações dos combustíveis vendido às distribuidoras nas refinarias. Na atual política, os preços são calculados a partir da paridade de importação. Analistas de grandes bancos e especialistas do setor são céticos quanto à adoção da mudança e a efetividade da proposta.

A capacidade de refino no país não é suficiente para atender a toda a demanda nacional e, para ser plenamente suprido, o mercado interno depende da importação, que pode ficar inviável para players menores caso a Petrobras pratique preços abaixo dos que são usados para comprar os produtos no exterior. "O preço do diesel pode cair pela Petrobras, mas aumenta a defasagem com os importadores. A Petrobras vai aumentar a importação? Se não, vamos ter problemas", diz o coordenador-técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), Rodrigo Leão.

Segundo Leão, a medida seria paliativa e, caso tenha algum efeito prático na redução dos preços nas refinarias da Petrobras, a queda pode não chegar às bombas, pois pode ser compensada por novos aumentos nos preços internacionais.

Uma fonte do setor aponta também riscos de distorções no mercado. "O preço da Petrobras cai, mas aumenta a defasagem em relação a outros importadores. Players menores vão precisar sair da importação e a atividade vai ficar concentrada nas grandes empresas, que conseguem custos menores. Vai se criar um desequilíbrio", diz.

Para o analista da Ativa Investimentos Ilan Arbetman, a medida pode levar a alguma redução nos custos da Petrobras, mas seria uma forma indireta de baixar preços e, por isso, não teria impactos grandes nas cotações finais. Ele explica que adotar uma mudança no frete, no caso das exportações do petróleo cru produzido pela Petrobras, pode prejudicar as negociações da companhia no mercado internacional, principalmente com clientes asiáticos. Segundo informações da estatal, no primeiro trimestre 56% das exportações de óleo bruto foram para a China. "Não é fácil alterar condições comerciais com grandes compradores. Existe o risco de o cliente buscar a concorrente, à procura de condições melhores", afirma Arbetman.

Já o presidente executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, acredita que a mudança na importação de petróleo e derivados da modalidade CIF para FOB pode trazer vantagens. Ele frisa que o custo do produto importado pelo CIF tende a ser maior que o do FOB, uma vez que, ao pagar o seguro e o frete, o exportador vende um "pacote fechado" e acaba por majorar os custos. Para ele, a Petrobras tem tamanho suficiente para negociar uma mudança na modalidade de importação. "Tecnicamente é uma boa saída, tem grande chance dela economizar na importação", diz, acrescentando que "geralmente" a empresa consegue ganhos ao negociar diretamente o frete.

Procurada, a Petrobras ratificou a prática de preços em equilíbrio com o mercado externo, mas evitando repassar volatilidades conjunturais. Fontes dizem que "não faz sentido" uma mudança. "A maneira correta de usar preços de exportação como base seria ter capacidade de refino para exportar derivados. Não é o caso", diz fonte.

Autor/Veículo: Valor Econômico
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